segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Capítulo V

Em alguns segundos antes da minha resposta, imaginei milhares de favores que ela poderia pedir a mim. Ela estava agora olhando em meus olhos, com um profundo desespero no olhar. Eu podia sentir que ela não estava bem. Agora eu tinha certeza que ela precisava de mim.
- Pode falar. - dei uma pausa - Faço o que for preciso por você.
- Jhon, preciso de dinheiro. Eu não posso explicar agora, mas pago a você quando puder.
- Dinheiro? Por que?
- Eu não posso explicar, Jhon por favor, não me faça explicar.
Seu olhar era de súplica.
- Certo Rachel, quanto precisa?
- Dois mil reais.
- Eu não sei se tenho isso.
- Tudo bem Jhon, mesmo assim, obrigada.
Estava com um sorriso decepcionado.
- Calma Rachel, vou ver minhas economias, e talvez tenha algum dinheiro na poupança.
- Não precisa fazer isso por mim. Sei que não é fácil conseguir essa quantia de dinheiro.
- Rachel, eu já disse que gosto muito de você, e que faço o possível e o impossível para ajudá-la.
Vi em seu olhar uma alegria diferente. Uma alegria emocionada. Como de uma criança que volta para os braços da mãe depois de algum tempo.
- Obrigada Jhon. Obrigada mesmo.
- Não agradeça ainda. Ainda vou ver se tenho o dinheiro, e ainda quero que me conte o porquê do pedido.
Me olhou por uns instantes, e sem resposta, apenas disse:
- Tchau Jhon, nos vemos amanhã.
Antes que eu pudesse responder, ela já tinha entrado em seu apartamento, extremamente atordoada. A verdade é que eu tinha esse dinheiro para ela, e muito mais. Mas eu queria saber o motivo. E ainda quero.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Capítulo IV

As coisas não faziam sentido. Ela sempre foi simpática comigo, mas nessa manhã havia sido extremamente fria. Sei que algo estava errado. Sei que ela não estava bem. Sei que eu precisava ajudá-la.
Fora o café da manhã um pouco tumultuado, o dia foi bastante normal. A vida de empresário é extremamente entediante, mas apesar disso tenho que parecer concentrado. Não era o que acontecia hoje. Passei o dia inteiro pensando na conversa que tive de manhã com Rachel. A atitude dela era estranha, talvez algo estivesse atormentando ela. Ou alguém.
Quando eu cheguei em casa, confesso que com um pouco de esperança de encontrar o buraco, fui até o banheiro. Entretanto, havia apenas meu espelho lá. A imagem fria de um homem confuso era refletida ali. Tentava encontrar em meus próprios olhos as respostas para a atitude de Rachel. Eu poderia apenas ir até o apartamento dela e perguntar, mas o orgulho não deixava.
Então, nesse momento ouço uma batida na porta. Vou abrir. Era ela.
- Desculpe pela minha atitude esta manhã. - Ela sorria - Eu estava um pouco nervosa, com algumas coisas. Não deveria... - hesitou um pouco - Ter dito para você se afastar de mim.
- Mas você disse...
- Eu sei, mas eu não pensei. Desculpa.
- Tudo bem Rachel, eu entendo que você deve ter problemas, mas não precisa ficar dessa forma, posso ajudá-la, não posso?
- Eu...Acho que não.
- Por que?
- São problemas meus, com a minha família, não quero que se envolva com isso.
- Mas Rachel, ouça o que eu digo: eu gosto muito de você, mesmo lhe conhecendo a pouco tempo, estou disposto a te ajudar, não importa o que isso exija de mim.
- Obrigada Jhon.
Ela me abraçou forte por um longo período. Olhou em meus olhos, e deu o sorriso mais lindo que se possa receber. Deu um longo aceno, e entrou em seu apartamento.
Fechei a porta, sentei no sofá. Liguei a televisão. Estava passando um programa que eu não prestei muita atenção, mas era algo sobre um homem ficar mais de 48 horas com aranhas. Fiquei olhando aquele programa, sem nem entender, e pensando na minha conversa de pouco tempo atrás, e no inesquecível sorriso que eu havia recebido. Então, ouço novamente uma batida na porta. Vou abrir. Rachel outra vez.
- Jhon, desculpa incomodar a essa hora. Mas, quero que você faça um favor pra mim...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Capítulo III


Enfim, manhã novamente. Acordei animado, exaltado, feliz, pulando de alegria. Tanto é, que quase cai da escada em um desses meus pulos. Tomei um longo banho, me arrumei, me perfumei. E fui buscá-la em sua casa.
- Bom dia querida!
Eu sorria mais que político em eleição.
- Bom dia. Sente-se, vou me terminar de me arrumar, não demoro.
Entretanto, meu sorriso não foi igualmente correspondido. Ela parecia angustiada, com medo, nervosa. Bom, creio que esteja nervosa pelo encontro.
Logo ela estava pronta, levei ela até um café perto de casa, pois, como nossos locais de trabalho eram distantes um do outro, dessa forma, nenhum dos dois sairia da rota.
- Ah, nós podemos ir a outro lugar? - Disse ela, totalmente angustiada. - Esse lugar...
- Mas, achei que esse seria um ótimo lugar para nós tomarmos café. Não gosta?
- É péssimo, horrível, o cheiro...Eu quero ir embora. Vamos, por favor querido.
Ela pegou pesado, me chamou de querido, tive que concordar. Mas eu sabia que não era por isso que ela queria sair dali. Seja qual for o motivo, irei descobrir.
Fomos a outro café, mais simples, mas pelo menos de lá ela gostou.
- O que vai querer? - Eu disse.
- Apenas uma xícara de café preto.
- Não vai comer?
- Não. Estou com pressa.
Ela estava muito fria essa manhã.
- Certo. Garçom, dois cafés preto por favor?!
- Trarei senhor.
Tentei puxar alguma conversa.
- Então, nem sei seu nome ainda. Posso saber, ou se contar terá de me matar? 
Ela apenas respondeu:
- Rachel.
- Lindo nome. - Sorri - O meu, caso queira saber é Jhon.
Ela não demonstrou reação.
- Olha só, - Disse ela de repente - eu tenho que ir, tenho alguns problemas a resolver.
- Problemas? Posso ajudar?
Vacilou uma pouco, suspirou, abaixou a cabeça, e respondeu:
- Não Jhon, você não pode.
- Por...?
- Ou melhor, pode. Fique longe de mim.
- Rachel?
- Por favor, será melhor para nós dois.

domingo, 1 de agosto de 2010

Capítulo II

Eu realmente parecia um adolescente que nunca havia saído com uma garota. Incrivelmente, as horas, metaforicamente falando, não passavam. Por que? Oras, ainda perguntas. Eu queria cada vez mais entrar em casa e correr para o banheiro, ver se ela estaria lá. Mas espera, ainda não sei seu nome, não sei absolutamente nada sobre ela. Somente que acorda mais ou menos 7:30 da manhã, e que logo que acorda vai para o banheiro. Que seu pijama favorito é um se ursinhos coloridos. Que toma café as oito, e que sai para o trabalho as 8:30. Bom, sei seu endereço, pode ser um bom, ou péssimo começo, não sei.
Mas enfim, ao chegar em casa, logo corro para o banheiro, e... Meu Deus! Onde está o buraco? O que houve, o que aconteceu? Será que assassinaram ela, e fecharam o vão, para que ninguém descobrisse? Ah, terei de ir certificar.
- Olá – Ela sorriu, maravilhosa e lindamente, como sempre fazia, após abrir a porta. - Tenho quase certeza que nosso café é só amanhã, não estou certa?
- Ah, café? Que café? - Oh meu Deus, eu parecia um pré-adolescente agora. - Ah sim! O café! Desculpa, é que fiquei atordoado com o susto.
- Que susto? O que aconteceu?
- O buraco...Sumiu.
- Ah sim, avisei que ia consertar isso logo.
- É, realmente. Mas pensei que houvesse acontecido algo pior, fiquei preocupado.
- Não precisa se preocupar, - Sorriu – eu já sou uma moça bem grandinha.
- Certo, fico mais feliz em saber disso.
A verdade é que eu estava arrasado, não veria mas aqueles lindos olhos verdes cheios de remela de manhã. Entretanto, para me alegrar, ela estava bem, e nosso café ainda estava marcado.




terça-feira, 29 de junho de 2010

Capítulo I

Era um dia como qualquer outro. Coloquei meu chinelo de pêlo, desci a escada, coloquei o café para passar na cafeteira, e fui ao banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes, arrumei meu cabelo.
Mas, arrumando meu cabelo, ainda meio desacordado, dopado talvez, vi que naquele espelho não era minha imagem, e sim, uma mulher linda e loira, com grandes olhos verdes, cheios de remela devido ao seu recém acordar. Era linda sim. Mas não era eu! E geralmente se espera que um espelho reflita a sua própria imagem.
Comecei a observar melhor a garota que estava a minha frente, em tão poucos minutos pensei em várias possibilidades, pensei até mesmo que eu poderia ter morrido e encarnado em outro corpo, apesar de minha religião não acreditar nisso. Mas aquele era meu banheiro, meu vaso, minha pia, meu chuveiro e minha cueca no meu cesto de roupas sujas. Então a imagem, que eu havia notado que estava congelada, se moveu, a mulher colocou seu belo cabelo cacheado atrás da orelha e sorriu. Eu, como bom moço simpático, ou apenas bobo de amor, retribuí com um grande sorriso, como se aquele fosse, ao contrário do que era, um lindo momento romântico. E para minha surpresa, ela disse:
- Nossa, parece que o pedreiro quebrou mais a parede do que deveria.
E acreditem, ela riu.
- O que você quer dizer com isso?
Talvez eu tivesse entendido, mas eu queria ouvir mais a voz dela.
- O pedreiro, contratei um para consertar o cano do meu banheiro, acho que ele quebrou a parede mais do que deveria.
Bom, você deve estar pensando “mas por que ela está ai?”. É, eu também estava.
- Mas, como você veio parar do lado do meu apartamento? Nunca te vi por aqui.
- Me mudei para cá faz pouco tempo, e você também, pelo que eu ouvi, não fala muito com os vizinhos.
- Tem razão, acho que deveria conversar mais com as pessoas. Mas, estranho seu banheiro ser bem ao lado do meu, sua pia exatamente ao lado da minha.
- Apartamentos padronizados são assim. Mas por favor, não fique bravo, eu logo consertarei esse buraco.
- Não, imagine, sem pressa, vai ser um prazer, ver você todas as manhãs. - Eu sabia, aquilo tinha soado estranho. - Calma! Não é isso que você está pensando, só queria...
- Eu entendi. - Sorriu, doce e compreensiva.- De qualquer forma, vou tomar providências em relação a isso.
Foi estranho. Me sentia extasiado, enamorado, feliz, apenas por ver aqueles lindos olhos verdes cheios de remela.
Após o banho fui ao trabalho, e a propósito, desconfortável com a situação, coloquei uma toalha para cobrir o buraco.
Quando voltei do trabalho, fui surpreendentemente para o banheiro, o que não era comum, me descobri ansioso para vê-la novamente. Mas ela não estava lá. Dormi pouco aquela noite.
Logo de manhã, levantei da cama extremamente cedo, comparado com a hora que eu costumava acordar. Ia e vinha do banheiro até a cozinha. Da cozinha até o banheiro, com a xícara de café na mão. Quanto mais eu desejava não pensar nela, mais eu pensava. Até que, para o meu alívio, ouvi um ruído vindo da direção do meu banheiro, era ela. Tentei parecer calmo, como se tivesse acordado normalmente, para mais um dia normal de trabalho, em uma vida normal de empresário. Não consegui. As palavras não saiam completas da minha boca, tropeçava nas frases, falava coisas absurdas, sem notar, que ela fazia o mesmo. Enfim, consegui dizer algo concreto, mas sem sentimento algum:
- Quando o mestre de obras vai arrumar este estrago em sua parede?
- Talvez somente na próxima semana. Peço desculpas novamente pelo transtorno.
- Oh, imagine, a culpa não é nem um pouco sua. E para falar a verdade, eu até gosto de conversar com você de manhã.
- Verdade? Tenho que confessar que sinto o mesmo sentimento em relação a você.
- Gostei de saber disso. – Sorri – Amanhã de manhã, o que acha de tomarmos café juntos? Afinal, até escovamos os dentes juntos, compartilhamos de parte do nosso dia, um café seria algo mais, digamos, formal, não acha?
- Concordo, - Ela riu lindamente – de fato adoraria tomar um café com você. Amanhã as oito horas?
- Combinado. Até amanhã então, e um belo dia para você.
- Obrigada, igualmente.
Fechei a cortina do buraco, também conhecida como toalha, tomei um banho e fui trabalhar. Mesma rotina de sempre.